Sandro Donatello

Texto: Rafael Frederico Teixeira


Sandro Donatello era o ser mais incomum que conheci, não há paralelos. Era qualquer coisa, menos convencional.

Dedicou-se apaixonadamente à pintura, sem jamais deixar de produzir, sem arredar o pé de seu estilo, tão distinto e próprio como sua personalidade; sem ceder ao fácil, ao automático ou ao comercial. Um artista por inteiro, por convicção.

Sua obra, sempre calcada no figurativo, como a de seu pai e também as de seus irmãos, invoca um imaginário rico, um universo psicológico profundo de imagens marcantes, por vezes deformadas e assustadoras. A sensualidade e o erotismo aparecem de forma repetida, crua, quase insistente ao longo da carreira. Graças à imensa produção, nos deparamos com uma miríade de imagens do cotidiano, das ruas, de reflexões tanto pessoais quanto sociais.

A paleta de Donatello, corajosa e riquíssima em seus ásperos contrastes, alimentou e engradeceu o impacto desse expressionismo contemporâneo. Sua pintura reflete uma variedade extrema de interesses e faz-me lembrar o seu jeito de ser. Inquieto, extravagante, implicante e ao mesmo tempo brincalhão? Foram palavras que outros usaram para descrevê-lo. Como disse, para mim, é muito difícil descrever o seu perfil, e certamente quem o conheceu há de me entender. Era tudo isso, e muito mais. Único, sim, com certeza!


Para quem não o conhecia, acredito que fosse mesmo difícil manter um diálogo centrado ou lógico com Sandro. Era algo que havia de se aprender. Como na arte, ele se comunicava quase que por uma linguagem própria, cheia de manias, de meio dizeres. Fugia do previsível como uma escorregadia serpente. Conversar com Sandro era certamente uma experiência "high context", como diria o antropólogo Edward Hall. Para entendê-lo realmente, era preciso estar envolvido, passar tempo com ele, ou conhecê-lo muito bem, de longas datas; pescar o significado nos seus gestos, na sua construção anárquica das frases, sem regras, misteriosas. Sua sabedoria incôndita não era de fácil acesso. Era para os rápidos, os oportunos, os sagazes. Como se um discordiano fosse, gostava do caos, do embate, do riso, da movimentação. Para além da sua arte, não parecia ter opinião firme, preferia ser um mutante, um anti-argumentador, e por isso mesmo estar com ele era sempre interessante.


Gostava de conviver, de visitar os amigos e parentes, de perambular pela cidade, de gastar suas gargalhadas caricatas características. Charmoso, belo, muito bem desenhado, apreciava os extremos do dia e da noite, o urbanismo da cidade ou o bucólico do campo. Livre, despretensioso, despojado, desapegado, carregava e distribuía uma energia expansiva e falante, uma alegria contagiante. Mais que uma personalidade, era um personagem que habitava a vida como se fosse um passeio por cenários expressionistas, exóticos, exagerados como os de sua pintura. E nesses cenários o artista tomava o seu lugar, vivia a sua arte, questionava, desafiava, desfigurava o careta, subvertia o quadrado, subjugava o usual. Um tal para se lembrar, para festejar, para agradecer.


Na galeria estão fotos improvisadas de três pinturas que estiveram presentes durante meu crescimento, nas paredes da casa de minha mãe, as quais eu tive o prazer de, por anos, poder contemplar. Obras que não fazem jus às telas, retratos que considero icônicos, mas que estão à mão para uma homenagem, nesse pesaroso momento. Acredito que possam dar um vislumbre da dimensão e da potência de sua contribuição para a arte brasileira.

Descrição das obras na galeria



1. Retrato de Picasso, 1977

Da fase realista, o artista ainda jovem homenageia o pintor que claramente foi uma de suas maiores influências.

2. Retrato de Claudio Valério Teixeira, 1985

Também da fase realista, considero essa uma tela genial. O uso da cor é impressionante, e a expressão do retrato me comove. Se eu fosse pintor, gostaria de pintar assim, tal e qual esse retrato.

3. Cabeça de Mulher, 1988

Belíssima peça, já demonstra traços de seu expressionismo da fase madura, com uma interpretação mais livre, mais psicológica e retorcida das formas, ainda num estado preliminar ao estilo que o artista haveria de alcançar.


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