Vincerò: uma vida em "Sol maior"!

Atualizado: 19 de dez. de 2021

Texto: Maria Helena de Souza Teixeira Título e subtítulos: Eduardo Ariel de Souza Teixeira

Figura 1: Retrato do filho pelo pai, Oswaldo Teixeira.


Oswaldo Teixeira e Margarida Olga Aubert Teixeira tiveram sete filhos: Eleonora Beatriz, Amiel Augusto, Stelio Leonardo, Christiano Ariel, Sandro Donatelo, Luciano Márcio e Claudio Valério.

Christiano nasceu no dia 20 de novembro de 1942, no Rio de Janeiro, com 4,5kg , um meninão, a cabeça grande, sinal de inteligência, e que mais tarde lhe valeu o apelido de “Cabeção”.

Amor pelos pais

Ele tinha muito orgulho de seu pai, como artista e como homem. Com ele aprendeu a gostar de todas as formas de arte: pintura, escultura e música. Além de pai e filho eram amigos, gostava de contar casos pitorescos que envolviam a figura do pai, como quando se atrapalhou todo e quase não conseguiu entrar num táxi, ou, ao encontrar pessoas desconhecidas dentro de sua própria casa e não se incomodar.

Por sua mãe, a mocinha francesa que veio para o Brasil por causa da guerra, tinha muito carinho e respeito, era uma mulher de temperamento forte, comandava uma família grande praticamente sozinha, o marido se dedicava a carreira artística, e, era dela a responsabilidade de organizar a casa e cuidar dos filhos.

Infância

Christiano passou sua infância na rua Paulino Fernandes, em Botafogo, morando numa casa grande, de dois andares. Não era o mais levado dos irmãos, gostava de conversar com pessoas mais velhas, mas como toda criança aprontou algumas artes, matou passarinhos com uma espingarda de ar comprimido, presente de seu pai; jogou bola na rua, era o dono da bola, futebol não era seu forte; pegava carona no estribo do carro do Dr. Júlio, que morava na mesma rua e era seu amigo; ficava zangado, quando nas refeições eram servidas batatas fritas e não podia repetir, nunca sobravam, era muita gente para comer, ou, dos biscoitinhos amanteigados, oferecidos primeiro para as visitas e só depois para as crianças.

Juventude

Conheci Christiano em 1963, um bonito rapaz, cabelos crespos e negros, belos olhos verdes e corpo de atleta, praticava remo no Botafogo de Futebol e Regatas, clube para o qual torcia. Seu desejo era aprender a lutar judô, mas quando pediu o quimono para sua mãe, Eleonora sugeriu que ganhasse a roupa como presente de natal, que seria alguns meses depois, por isso desistiu do judô e se dedicou ao remo, ganhou algumas regatas ao fazer parte do barco oito-com.

Começamos a namorar algum tempo depois. Fomos a muitas festas na sede social do clube do Botafogo, na época as famosas domingueiras ou hi-fi, íamos ao cinema e à praia. Nos dávamos muito bem, raramente brigávamos e eu achava que o namoro acabaria em casamento, mas quando menos esperava Christiano fez uma retirada estratégica, sumindo da área. A casa em que morava na rua Paulino Fernandes foi desapropriada para a abertura da rua Mena Barreto, e a família mudou-se para Copacabana, na rua Nossa Senhora de Copacabana, atrás do Hotel Copacabana Pálace, um apartamento de cobertura maravilhoso, que mais parecia uma casa.

Um tempo depois voltamos a nos encontrar e reatamos o namoro, e Christiano fez outra retirada estratégica. Só voltamos a nos reencontrar na praia, e, como ele mesmo dizia, passei no “teste da areia”, daí em diante ficamos juntos.

Meus pais gostavam do Christiano. Papai o chamava de “almofadinha”, porque ele andava todo arrumado, e, Christiano dizia que meu pai era o “urso branco”, era grande e tinha uma vasta cabeleira branca. Quando íamos aos bailes de carnaval, Christiano fantasiado de tirolês, chegava e saía da festa com a roupa passada e engomada, era uma figura!!!

O "Jovem", como Anita chamava o Christiano, queria que seus cabelos crespos ficassem lisos. Uma vez, foi a um cabeleireiro, seu conhecido, e fez um alisamento. Chegou em casa surpreendendo a todos, parecia um japonês, cabelos escorridos, caindo na testa. Mas a grande surpresa veio para ele após a primeira lavagem, o cabelo ondulou e ficou espetado. O cabelo de japonês não durou três lavagens, uma decepção ...

Casamento

Figura 2: Casamento de Christiano Ariel e Maria Helena.


Entre desencontros e encontros, após oito anos, nos casamos no dia 2 de março de l973, no salão de festas do Colégio Santo Inácio. Christiano não gostava de usar aliança, perdeu e achou a aliança várias vezes.

A festa do casamento foi simples, alegre e descontraída: as cunhadas de mini-saia, última moda; os cunhados de calça boca de sino e com os cabelos compridos; minha irmã, mais séria, de vestido comprido; Eleonora com um penteado à Elke Maravilha, um coque no alto da cabeça, cheio de cachinhos; os fotógrafos, Paulinho Capoeira e Felipe, amigos do Christiano, usando o mesmo filme duas vezes, o que fez muitas fotos estragarem; Carlos Oswaldo, sobrinho do Christiano, ainda menino, aparecendo em primeiro plano em várias fotos, é claro nas que sobraram ...; Mônica e Christine, sobrinhas do Christiano, e Marietta, minha prima e afilhada, com vestidinhos curtos, que pareciam camisolinhas.

Meu vestido era branco, frente única, quase um vestido de noiva, Christiano de terno novo, e como dizia meu pai, estava um perfeito “almofadinha”.

Nossa lua de mel foi em Curitiba, presente de meus pais. Fomos de ônibus, à noite, depois da festa, dormi o tempo todo, Christiano não fechou os olhos. Foram dias muito agradáveis, a cidade é bonita e o povo bastante hospitaleiro.

Na volta ficamos uns dias em São Paulo na casa do Castellane, pintor amigo do Professor Oswaldo. Não fomos para um hotel porque Christiano queria economizar e comprar um tripé para sua máquina fotográfica. Ficamos em um quarto com duas camas de solteiro, o que não achei muito interessante. Castellane e sua esposa eram muito gentis, e, se não fossem as camas separadas teria sido ótimo.


Christiano trabalhava na Abaeté Propaganda, e eu no BANERJ. Estávamos comprando nosso apartamento, um duplex, pequeno, de dois quartos, mas muito aconchegante, no mesmo prédio do dos meus pais, na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo.


No primeiro aniversário do Christiano, depois de casados, fizemos uma reunião com a presença de toda a família, pais, irmãos, cunhados e cunhadas. O último convidado saiu de nossa casa às quatro horas da manhã, e eu tinha que estar no banco às seis horas. Quase dormi em cima dos cheques, mas valeu a pena, Christiano ficou muito satisfeito.


Primeiro filho

No dia 31 de janeiro de 1974 nasceu Eduardo Ariel. Não tínhamos planejado ter filhos logo, mas ele chegou e ficamos felizes. Quando fui para a maternidade Christiano estava na aula de canto. Todos estavam no hospital, meus pais, minha irmã, D. Olga, Eleonora, menos o pai da criança. Quando chegou o filho já tinha nascido, prematuro, muito pequeno, pesando 1.900 grs.. Neste dia Christiano foi apresentado a meu médico, Dr. João Roberto, ele nunca tinha ido comigo às consultas do pré-natal. Eu me sentia um pouco mãe solteira, todas as mulheres iam com seus maridos, mas Christiano não se ligava nestas formalidades.


Golpes da vida

Christiano tinha sido demitido da firma de propaganda, foi trabalhar como fotógrafo da revista Manchete, da Block Editores. Fazia reportagens, festas e acontecimentos sociais, chegou a fotografar Fafá de Belém e Norma Bengel. Certa vez, foi fazer um trabalho vestindo uma camiseta que tinha um tucano estampado na frente, quase foi despedido.


Maior que a vida

Em maio de 1974 falecia Oswaldo Teixeira. Christiano, como já disse, gostava muito do pai, mas não derramou uma só lágrima durante o enterro.


Rosas têm espinhos e pétalas

Em abril de 1976 meus pais faleceram, era minha mãe quem me ajudava tomando conta do Eduardo para que eu pudesse trabalhar. Mudamos para o apartamento deles. Já estava grávida novamente. Minha avó Angelina, mãe de meu pai, foi morar conosco, e, tia Lídia passou a cuidar do Eduardo, dando a maior “força”. Christiano adotou tia Lídia como se fosse tia dele também, se davam muito bem, e tinham em comum a crença religiosa, o espiritismo. Aliás, ele adotou todas as minhas tias, a Alba e a Alfa, e o Heládio, marido da Alba, de quem gostávamos muito.


Boas novas também chegam

Em 29 de agosto de l976 nascia Flavia, uma menininha gorducha e bonitinha, e, desta vez, o pai estava presente. Quando chegamos em casa com Flavia, Christiano deu mais atenção ao Eduardo para que ele não ficasse enciumado. Ela foi um bebê muito calmo, dormia a noite inteira. Às vezes, quando as crianças choravam de madrugada, eu fingia que não acordava até o Christiano levantar e ver o que estava acontecendo.


No ano do nascimento da Flavia compramos nosso primeiro carro, uma brasília azul, mas o interessante foi que Christiano procurou nos classificados no jornal, ligou para o proprietário do automóvel e fechou o negócio sem ver o carro, acreditando na palavra o homem. Nós dois não sabíamos dirigir, quem foi pegar o carro conosco foi o Rui, marido da Eleonora, que então deu uma olhada no carro. Foi o melhor carro usado que tivemos, subia ladeira em terceira, nunca deu problema de mecânica.


Grande pai e amigo

Christiano foi um bom pai, atencioso e carinhoso: instalou um farol no velocípede dos meninos – um velotrol laranja - que foi a sensação do prédio, todas as crianças queriam andar no brinquedo; desenhava muito com o Eduardo e para a Flavia fazia os desenhos; Flavia dizia que tinha nascido da barriga dele, que confirmava, mostrando uma “cicatriz”; comprou uma cachorrinha para o Eduardo, a Biba, ou Biba Maria como o Stelio chamava, e depois uma gatinha para a Flavia, que vivia de quatro miando, chamada Mimosa, com a ponta do rabinho quebrada, sinal de raça pura, conforme informação de nosso veterinário predileto de Botafogo, o Dr. Pastana, até que fomos a uma exposição de gatos no Hotel Glória e um dos juizes esclareceu que aquilo era um defeito genético.


Nós íamos muito à praia, principalmente no Forte de S. João, na Urca, junto com nossos amigos Sérgio e Lourdes, e seus filhos Sérginho e Carol, pegávamos as quatro crianças e nadávamos até os barcos ancorados na praia de dentro, a praia fraca, e o Sérgio ficava na areia nos olhando, tomando conta de todos; uma vez um filhote de gavião caiu no mar, nesta mesma praia, e Christiano se jogou na água para salvá-lo de morrer afogado, foi batizado de Sassá Mutema, levamos o pássaro para casa a fim de crescer, criar penas, poder voar e ser solto no mesmo lugar.


Em um 1º de maio, dia do trabalho, feriado, levamos Eduardo, Flavia e os primos Leonardo e Marcus André à Quinta da Boa Vista, eram todos pequenos, uma apresentação do Projeto Aquário estava programada, uma multidão presente, Christiano teve um “ataque de nervos”, para ele aglomeração de pessoas só no Teatro Municipal, assistindo a uma ópera, que ele adorava. Também como exceção poderia ter um pouco mais agente nas aulas de judô e taekwon-do, quando acompanhava o filho.


"Jovem" made in USA

Em janeiro de 1980 levamos Eduardo, Flavia e Marquinhos aos EUA, nossa primeira viagem internacional, fomos a Miami, Orlando – Disney, Washington e New York, andamos na neve, fomos a museus, passeamos bastante.

Surge o "Teixeira protetor"


Figura 3: Christiano Ariel com Marcus André.


Certo dia em que fomos à praia de Copacabana com as crianças e Marcus André, Christiano quebrou uma costela ao dar uma chave de pescoço em um garoto, mais velho, que estava implicando com o Marquinhos; quando o Eduardo estava com 17 para 18 anos, saiu com os amigos do prédio num sábado, eu acordei às seis horas da manhã de domingo e ele não havia chegado em casa, esperei até às sete horas e como Eduardo não tinha aparecido comecei a ligar para os amigos, que não sabiam de nada, chamei o Christiano, que ainda dormia, ele disse que iria rezar e eu poderia continuar procurando, minha vontade foi bater nele ..., Sérginho e Rafael encontraram o Eduardo na casa do Manoelzinho, os dois ferrados no sono depois de terem bebido um pouquinho demais.


Teorias do "Cabeça"

Christiano participou intensamente da vida dos filhos, porém tinha algumas teorias bem interessantes: quando a mãe pedir ao pai para apanhar alguma roupinha do neném na gaveta, desarrume tudo e diga que não encontrou nada, ou, faça a criança dormir com um ano e acordar aos vinte e um anos, já formada e trabalhando.


Vida profissional

Sua vida profissional foi bem intensa, antes de casar trabalhou como agenciador de anúncios para as Páginas Amarelas e pesquisador de venda de refrigerantes, o que não deu certo, ele era um artista, uma pessoa que nasceu para criar, viver do belo e para o belo. Foi professor de escultura e desenho na Escola de Artes Visuais, no parque Laje, deu aulas de fotografia no Instituto de Educação, mas, sua realização profissional, além da escultura, foi trabalhar em restauração de obras de arte com seu irmão Claudio e sua cunhada Thânia, em Niterói. Lá fez grandes amigos, Rosângela, Milton Eulálio e muitos artistas locais.


Como escultor ganhou algumas medalhas, no Salão de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1969, no Primeiro Salão de Artes no MEC do Rio de Janeiro, em 1971, e na Sociedade Brasileira de Belas Artes, em l983 e l988. Esculpiu bustos de personalidades como do escritor Hélcio Pereira da Silva,1975, do poeta Martins Fontes,1976, do professor Armando Fajardo, fundador do Lion’s Club do Brasil,1978, do pintor Funchal Garcia,1981, do atleta do Fluminense Futebol Clube, João Coelho Neto, o Preguinho,1982. Possui monumentos em áreas públicas, um para o Lion’s Club na cidade do Rio de Janeiro e o outro uma homenagem ao cubano José Marti em de Niterói, sendo que duas cópias da escultura de José Marti foram remetidas para Havana, Cuba. Particularmente executou trabalhos representando principalmente figuras femininas.


"Zé lanchinho"quase foi para Niterói!

Certa vez, Christiano e Claudio, foram entregar um trabalho na casa de um cliente, na Gávea, uma família muito fina, e o mordomo perguntou se eles queriam alguma coisa enquanto esperavam pelo dono da casa. Christiano pediu uma banana, porque precisava tomar um remédio e estava de estômago vazio. O mordomo atendeu prontamente, trazendo uma bandeja de furtas com um cacho de bananas.


Christiano quis mudar para Niterói, mas nossa vida estava estruturada no Rio de Janeiro, eu trabalhava em Copacabana, as crianças estudavam no colégio em Botafogo, tia Lídia morava na Praia de Botafogo, seria muito complicado, resolvemos ficar por aqui mesmo.


Todo super-herói precisa de uma saga e de uma liga

Em 1989 começaram os problemas de saúde do Christiano, que até então nunca tinha tido nada de grave. Um dia, de madrugada, teve uma convulsão. Foi ao médico, fez exames, mas nada foi diagnosticado. Algum tempo depois começou a apresentar dificuldades na direção do carro, embora nunca tenha sido um grande motorista, era muito distraído, via quadros de pintores famosos pelas janelas do décimo andar dos prédios por onde passava. Sua caligrafia começou a ficar ilegível. Procuramos um neurologista no Rio de Janeiro, que pediu novos exames e constatou a existência de um grande tumor no lado esquerdo do cérebro. Os prognósticos eram os piores possíveis, um tumor maligno, com pouco tempo de sobrevida, necessitava de uma intervenção cirúrgica imediatamente. Quando o médico me disse tudo isso cheguei a desmaiar, o susto foi muito grande. Christiano estava na sala de espera e não foi informado da gravidade da situação, só sabia do tumor e que precisaria de uma cirurgia.


Fomos para casa, eu não sabia o que fazer. Dei uma desculpa qualquer e sai, fui procurar Marietta, que além de minha prima e afilhada é minha melhor amiga. Christiano gostava dela, fez uma peça, um rosto de mulher, em que ela posou para alguns detalhes. Contei-lhe o que estava acontecendo. Marietta me deixou em casa e falou com seus pais, o Heládio e a Alba, que logo se propuseram a ajudar no que fosse necessário.


No dia seguinte telefonei para o Claudio, que junto com a Thânia, vieram ao Rio. Sugeriram que fossemos para São Paulo, procurar o Dr. Geroge Schult, um grande neurologista e neurocirurgião, amigo da família da Thânia, e que havia socorrido o filho deles, Rafael Frederico, quando ele caiu da escada do primeiro andar de sua casa. A família já sabia o que estava acontecendo, e queriam ajudar no que fosse possível.


Na Agência Posto V, no BANERJ, onde trabalhava, todos também foram muito prestativos. Sérgio Salvaterra, nosso gerente, me levou à CABERJ, sede do nosso plano de saúde, para que me orientassem naquele momento tão difícil. Não sei o que teria feito sem a ajuda e a amizade dos meus colegas da Agência Posto V: Salvaterra, Renato, Peron, Nilma, Ângela, Márcia Moncada, Sebastião, Wilma, Valéria, Briggs.


Primeira saga

Em abril de 1991, Christiano fez sua primeira cirurgia, em São Paulo, com o Dr. George Schult, que além de ser um grande médico é uma pessoa maravilhosa, atencioso, amigo e que transmite muita confiança. A cirurgia correu muito bem, não deixou sequelas, mas seria preciso fazer tratamento paralelo de radioterapia no Rio de Janeiro. Alfa, minha tia, e tia Lídia ficaram em nossa casa ajudando com os meninos que estavam nervosos e preocupados com os acontecimentos. Peron, se prontificou a levar o Eduardo e a Flavia a São Paulo para que vissem o pai, mas achei melhor que eles esperassem nossa volta.


Quando chegamos em São Paulo o João e a Leda, prima de minha mãe, que eu não via a muitos anos, nos receberam em sua casa. Ao sairmos do hospital teríamos que esperar uns dias para a retirada dos pontos e recuperação do Christiano. Leda nos hospedou novamente, fomos tratados com muito carinho e atenção por todos, inclusive por seus filhos.


Estiveram em S.Paulo, para nos fazer companhia o Stelio, a Anita, o Claudio, a Thânia e a Marietta.


Toque a campainha

Em um dos curativos que Dr. George fez no Christiano, eu e a Marietta tínhamos descido para almoçar, e ele pediu para o Claudio ajudar segurando a gaze, logo a quem ele pediu, Claudio, que tem horror a hospital, ficou nervosíssimo, foi para o banheiro, e, em vez dar a descarga puxou a cordinha que chamava a enfermeira em caso de emergência, foi um corre corre ...


Apoio dos amigos espirituais

Voltamos para casa e Christiano fez as aplicações de radioterapia, ficou careca, mas estava se recuperando muito bem. Fazia exames periodicamente que levávamos para o Dr. George ver. Além do tratamento médico convencional Christiano começou a frequentar o Centro Espírita Bezerra de Meneses. Vera Leite, sua amiga de anos da rua Paulino Fernandes, trabalhava no Centro e conseguiu vaga para que ele fizesse uma operação espiritual e tratamento de cromoterapia. Sua fé no espiritismo continuava inabalável.


15 anos

Em agosto do mesmo ano Flavia completou quinze anos e comemoramos a data com uma festa na casa de D.Olga. Christiano, com a cooperação musical do amigo Paulo Henrique, cantou e gravou a valsa para dançar com a filha, ficou muito bonito e emocionante.


Como tudo estava correndo bem fizemos uma viagem, com o dinheiro da venda de um quadro do Christiano e do Claudio, que abriu mão de sua parte, para que o irmão conhecesse a Europa e algum dos seus museus. Visitamos a Espanha, a França e a Inglaterra. Em Londres ficamos na casa do Rogério e da Christine. Foram dias de descanso depois de tantos problemas.


Segunda saga

Eu achava que já tínhamos tido nossa cota de sofrimento, que o pior havia passado e nada mais iria acontecer. Estava completamente enganada ......


Em dezembro de 1993, Christiano foi operado novamente, em S.Paulo, pelo Dr.George. Ficamos na casa da Leda, Marietta foi me fazer companhia por alguns dias. Desta vez Christiano ficou com sequelas no lado direito do corpo. Voltou para casa de cadeira de rodas. Não foi preciso fazer nenhum tratamento complementar. Começou com seções diárias de fisioterapia, na Clínica Corpo Vivo, no Flamengo, e pouco a pouco, com muita força de vontade e otimismo foi se recuperando, voltou a andar e melhorou bastante dos movimentos do braço e da mão direita. Voltou a trabalhar em Niterói no atelier de restauração, frequentava suas aulas de canto no centro da cidade e voltava a ter uma vida praticamente normal.


Em junho de 1994 tia Lídia morreu e Christiano ficou muito triste. Ela foi uma pessoa que lhe deu uma grande força espiritual. Fez muita falta para todos nós, principalmente para ele.


Terceira saga

Outubro de 1995, Christiano é operado pela terceira vez em S.Paulo pelo Dr. George Schult. Repetia-se a rotina. Leda nos recebendo, só que agora o João não estava lá para nos fazer companhia, havia falecido. Eu já me sentia em casa no hospital. Mais uma vez Marietta me acompanhando e Sandro marcando presença. Voltamos para casa. Cadeira de rodas, quimioterapia, fisioterapia, terapia ocupacional. Christiano se recupera um pouco, mas tem dificuldades para caminhar e o braço direito fica comprometido. Volta a trabalhar em Niterói. Não se entrega. Com a mão esquerda faz sua última peça de escultura, a cabeça de nossa cachorrinha, a Minie.


Em 1996 outra recidiva tumoral, é a quarta operação. Não temos mais condições financeiras de ir para São Paulo. Christiano é operado em novembro no Rio de Janeiro, na Beneficência Espanhola. Agora, apesar da fisioterapia, não consegue mais andar sem ajuda, só recupera alguns poucos movimentos do braço e da mão. A sorte é que neste mesmo ano eu me aposento e tenho condições de acompanhá-lo mais de perto.


Quem canta seus males espanta

Na Clínica de Fisioterapia Matilde Bacellar, em Botafogo, onde Christiano estava fazendo fisioterapia, durante o tratamento, cantava algumas canções e pequenos trechos de ópera. Cláudia e depois Danielle, as fisioterapeutas, não se importavam, alguns pacientes até gostavam, Tânia, a recepcionista, adorava. Eu ficava preocupada pois a "diretora", Dra. Silvia, poderia achar ruim, mas ela nunca reclamou.


Pausa na música

Em novembro de l997 o Heládio morre, e oito meses depois é a Alba que se vai. Foram pessoas que deixaram um grande vazio. Íamos sempre na casa deles, Christiano e Heládio escutam música, a Alba fazia almoços, jantares, era uma grande bagunça ..., quando não íamos lá eles vinham aqui em casa, procuravam animar e alegrar o Christiano.


Pulamos para quinta saga

Quinta cirurgia ,16 de fevereiro de 1998, dia do aniversário da Marietta, Rio de Janeiro, Beneficência Espanhola. Christiano passa muito mal. Fica no CTI, vários dias, vai para casa. Ao chegar em casa notamos que, em alguns momentos, tem dificuldade de raciocinar e a parte motora fica mais prejudicada. Novamente seções de fisioterapia para manter o pouco movimento que lhe resta.


Christiano presente!

Eduardo Ariel fica noivo da Flavia Varandas, e, na festa de noivado Christiano pediu solenemente sua mão em casamento para o filho. Christiano gostava muito dela, era atenciosa, amável e o tratava com carinho, muito falante e extrovertida, sempre tinha alguma coisa para contar, o que acabava por distrai-lo.


Em abril de 1999, com o tumor desenvolvendo mais uma vez, agora para o lado direito do cérebro, Christiano é submetido a uma radiocirurgia, na tentativa de evitar outra intervenção cirúrgica, porém não obtém os resultados esperados.


Se escuta uma música triste em Copacabana

No mês de maio de 1999 D. Olga morre. Acho que ela não chegou a ter consciência do real estado de saúde do filho.


Sexta saga

Em outubro deste mesmo ano, Christiano é submetido a sexta cirurgia. Eu não queria que ele operasse, pois corria o risco de ficar tetraplégico, em função da localização do novo tumor, mas como ele ainda tinha condições de decidir, resolveu arriscar. Infelizmente o pior aconteceu e ele perdeu os movimentos do pescoço para baixo. Não conseguia engolir, era alimentado por uma sonda. Neurologicamente nada mais poderia ser feito, como disse o neurologista que o acompanhava. Para nossa sorte uma das médicas do CTI da Beneficência Espanhola, Dra. Lúcia, a meu pedido, aceitou cuidar do Christiano, assumindo o caso, e, fazendo o que fosse necessário para que ele tivesse conforto e dignidade em sua doença.


Ainda temos festas e casório!

O aniversário deste ano Christiano passa no hospital. Juliana, amiga da Flavia, fez um bolo com cobertura de coco, muito gostoso por sinal, e levou para lá. Todos comeram uma fatia do bolo, até as enfermeiras de plantão, menos o aniversariante, pois não conseguia engolir e estava com a glicose alterada. Foi uma festa, diferente, mas de qualquer maneira uma festa.


Quando Christiano não pode mais frequentar o Centro Bezerra de Menezes, os médiuns do Lar de Teresa passaram a vir aqui em casa dar o apoio espiritual de que ele tanto gostava e sentia necessidade e que lhe restaurava um pouco das forças.


Mas, não aconteciam só coisas ruins! No dia 17 de junho de 2000, o Eduardo casa com a Flavia Varandas, que passa a ser Varandas Teixeira. Como o Christiano não pode entrar na igreja comigo, o Cláudio, padrinho do Eduardo, ficou em seu lugar. Foi uma bonita festa, e para nossa alegria Christiano participou daquele momento. Outro motivo de satisfação foi o nascimento de Anna Clara, filhinha da Luiza, nossa amiga, uma semana depois do casamento do Eduardo. Luiza trouxe Anna Clara para o Christiano conhecer, e, quando ela ficou maiorzinha nós a colocávamos na cama, perto do Christiano, ela dava risadinhas para ele que sorria para ela.


Cristiano e sua turma do 127

Christiano foi piorando e eu não tinha mais condições de cuidar dele sozinha, precisava de ajuda. O nosso quarto ficou parecendo um hospital: cama hospitalar, cadeira higiênica para o banho e para levá-lo ao banheiro, aparelho para aspirar secreção pulmonar, nebulizador. Nosso primeiro ajudante foi o Raí, que devagarinho, dando sorvete, conseguiu com que Christiano voltasse a engolir, podendo retirar a sonda do estômago. Tirávamos ele da cama para a cadeira de rodas a fim de que pudesse ir ao play, tomar sol e conversar com os amigos, o Sérgio, o Paulo, o Ricardo.


Danielle, da clínica de fisioterapia, nossa fisioterapeuta preferida, passou a vir em casa. Além dos exercícios conversava muito com o Christiano, pedia para que ele fizesse cara de peixe, pit bull zangado, pit bull cansado, pit bull manhoso, macaco aranha e muitas outras caretas. Um dia, durante a seção de fisioterapia, quase levou uma mordida no braço. Quando foi embora sentimos muito sua falta, ela era uma pessoa maravilhosa que sempre nos incentivava. Ana Paula ficou em seu lugar, ganhamos uma nova amiga fisioterapeuta. Aliás todos da Clínica de Fisioterapia Matilde Bacellar foram ótimos, tratavam o Christiano com muito carinho.


Quando Raí foi embora, Ana Maria, nossa amiga e diarista de muitos anos, a quem Christiano tinha pedido que não me deixasse caso ele ficasse preso em cima de uma cama, trouxe seu filho, Ilvilmar, apelidado de Dú, para ajudar a cuidar do Christiano. Ele é um ótimo rapaz, ganhou rapidamente nossa confiança e conquistou o Christiano. Eles conversavam bastante, isto é, o Dú falava o tempo todo, Christiano quase não se falava mais.


Flavia estava namorando o Forró, Joelson, que passou a frequentar nossa casa. Sempre que chegava ia ao nosso quarto dar bom dia ou boa noite e trocar algumas palavrinhas com o Christiano, ou, simplesmente, ficava sentado na poltrona, ao lado da cama, fazendo companhia. Trouxe de presente para o Christiano uma caravela com muitos escudos do Botafogo. Embora Christiano praticamente não se comunicasse, pelo seu olhar, dava a impressão de ter gostado do Forró.


Estrela nada solitária

Comecei a achar que Christiano não iria resistir por muito tempo, estava cada vez mais debilitado, porém não queria que ele fosse internado de novo, principalmente no CTI, que é um lugar impessoal e frio, só com pessoas estranhas, ele já tinha sofrido demais. Falei com o Eduardo e a Flavia e eles acharam que eu estava certa. Comunicamos nossa decisão a Dra. Lúcia e ela concordou conosco.


No começo de junho de 2001 Christiano voltou a ter dificuldade para engolir. Tentamos por mais ou menos quatros dias reverter esta situação, mas não conseguimos fazer com que ele se alimentasse, estava emagrecendo e cada vez mais fraco. Dra. Lúcia mandou que o levássemos ao hospital para colocar novamente a sonda a fim de podermos alimentá-lo.


Eu e o Dú levamos o Christiano de carro para o hospital. Quando chegamos Dra. Lúcia recolocou a sonda, e foi conversar comigo. Disse que o estado dele era muito grave, e que seria melhor interná-lo. Concordei porque ele ficaria no quarto, e nós estaríamos junto.



Guardi le stelle... Che tremano d'amore...E di speranza

(Nessun Dorma)

Três dias depois, 14 de junho, Christiano morria, tranquilamente, sem sofrimento. Estávamos todos lá, eu, Eduardo Ariel, Flavia e Flavia Varandas Teixeira. O Sandro e o Peron chegaram segundos depois que ele parou de respirar, Marietta e Luiz Cláudio logo após.


Tinha acabado um sofrimento de dez anos. Dez anos de luta, de vontade de viver, de querer acompanhar o crescimento dos filhos. Dez anos sem que escutássemos uma única palavra de revolta por tudo que tinha passado. Dez anos de resignação e muita coragem.


É claro que, como qualquer pessoa, Christiano não foi somente uma "pérola de rapaz", expressão usada por seu pai, teve seus defeitos, ódios, rancores, vontade de vingança por alguma coisa que lhe tivessem feito, mas no saldo de sua vida as qualidades foram maiores que os defeitos.


Christiano foi uma pessoa iluminada por sua crença espiritual. Eu, particularmente, tenho a sensação de que estavam esperando por ele, em algum lugar, algumas das pessoas a quem amou e por quem foi amado nesta vida, sua mãe, tia Lídia, Heládio, Alba e até mesmo a Minie, nossa cachorrinha, que quando eu pedia para que tomasse conta dele, sentava-se ao seu lado e só saía depois que eu mandasse.


Com certeza está em um lugar cheio de luz, aonde poucos tem o privilégio de chegar. Deixou muitas saudades e um lição de vida para todos nós ...



All'alba vincerò! Vincerò, vincerò!

(Nessun Dorma)


 


O momento de agradecer


Não poderia perder a oportunidade de agradecer as pessoas que estiveram sempre comigo, me ajudando nas horas em que perdia a paciência, em que achava que não ia mais aguentar, em que tinha vontade de fugir para bem longe e só voltar quando tudo estivesse acabado, e que me apoiaram quando mais precisei.

Obrigado aos meus filhos, Eduardo Ariel, que não derramou uma só lágrima no enterro do pai, como o pai havia feito anos antes no sepultamento do próprio pai, e Flavia, que procurou ser forte e não demonstrar seus sentimentos, mas que brigava porque queria ter nascido da barriga do pai; a nora Flavia, que foi muito carinhosa e amiga; a Marietta e ao Luiz Cláudio, que sempre estiveram ao meu lado; a Leda por ter me apoiado e recebido tão bem em sua casa; ao Sandro, que vinha visitar o irmão constantemente e o alegrava; a Eleonora, que dava idéias para aliviar algum incomodo do irmão; ao Claudio, por ter representado o Christiano no casamento do Eduardo Ariel; ao Stelio, pelo pássaro Cancão que deu ao Christiano; ao Amiel, que de sua janela, tomava conta das luzes acesas de nossa casa; ao Luciano e a Lúcia, que telefonavam pedindo notícias; a Anita e a Thânia, que me encorajaram a suportar tudo por que passei; a Márcia, amiga e companheira em momentos particularmente difíceis para mim; a Juliana e ao Abrahão, sobrinhos do coração, que muitas vezes vieram me fazer companhia; ao Murilo, amigo do Eduardo, que no dia que não pude ir ao CTI do hospital na hora da visita, por causa da chuva que alagou a cidade, foi lá ficar com o Christiano; ao Forró, por sua atenção; a Luiza, que trouxe Anna Clara para o Christiano conhecer e nos alegrar; a Alfa, por suas orações; a Alda Maria, por sua preocupação comigo; ao Peron, meu funcionário nota 4, pelo seu carinho; ao Sérgio Dutra, grande amigo, que vária vezes veio apanhar o Christiano para tomar sol e jogar conversar fora; ao Paulo e ao Ricardo que faziam parte da rodinha do bate-papo; ao Ricardo de Hollanda, amigo de longos anos; ao Juan Pietro, ex-aluno de escultura e admirador; ao Leo, o amigo de infância, por suas constantes visitas; ao pessoal do Lar de Teresa, Geraldo, Lúcia, Olga e Célia, que vinham trazer suas orações; a Vera Leite, a amiga que disse a última prece; a todos os amigos do BANERJ, que sempre me acompanharam; a Ana Maria e ao Dú, que me ajudaram nos piores momentos; ao Dr. George Schult, um grande médico, com uma energia muito positiva, e finalmente a Dra. Lúcia, que além de ser a médica do Christiano foi uma pessoa dedicada e amiga.


Às pessoas, que por qualquer que seja a razão, não conviveram com o Christiano durante sua enfermidade, lamento profundamente, pois não tiveram a oportunidade de conhecer a garra de um homem que não passou simplesmente pelo mundo, foi um herói que lutou bravamente pela própria vida, foi um vencedor ...





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